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A dificuldade dos pais de impor limites aos filhos

Impor limite às crianças não é tarefa simples. Por isso é sempre bom manter o diálogo aberto com as crianças.

Ricardo tem 6 anos. Está em casa vendo TV e por volta das 18:30h Valéria, sua mãe, chega em casa com uma caixa de bombons que ganhou no trabalho. Ele corre para beijá-la e, curioso como toda criança, pergunta que presente é aquele. Ela sente-se embaraçada, pois se aproxima a hora do jantar, mas mostra-lhe os bombons.
Logo ele pede um e ela argumenta que lhe dará após a refeição. Inevitavelmente ele diz: "só hoje, mãe", "é só um", "prometo que vou comer tudo" etc, etc. Muitas vezes faz "caras e bocas", chora, se joga no chão, xinga a mãe etc. Valéria ao ver seu filho com tal sofrimento não sabe como proceder, afinal já passa o dia todo fora trabalhando, o que já gera bastante culpa e neste caso em especial, foi ela quem mostrou os bombons fora de hora.

Este caso simples mostra como é importante que o casal pense nas regras de sua casa/família, assim como nos valores morais e éticos que desejam passar a seus filhos. Este pensamento se inicia com o nascimento do primeiro filho, quando as situações começam a surgir; para os demais essas regras e valores já estão determinados. Cada família tem regras e valores próprios, naturalmente respeitando os da sociedade em que vivem.

O casal deve, então, pensar se em sua casa haverá ou não hora para tomar banho, para as refeições, quando ocorrerão exceções, o tipo de programa de TV permitido etc. É importante que se respeite a singularidade de cada família, que não será igual nem a do pai nem a da mãe, mas uma nova família a partir desse novo casal. Se na família de Ricardo fosse permitido comer bombons antes do jantar, não haveria conflito.

Mas Valéria, juntamente com seu marido, consideram essa ocorrência prejudicial à alimentação e, conseqüentemente, à saúde de seu filho. Então onde está o problema? Vemos dois principais fatores determinantes: o primeiro é a eterna culpa da mãe que trabalha fora e que "justamente nos poucos momentos em que estou em casa, tenho que dar limites ao meu filho", e o segundo, mas não menos importante, é que "ele só quer um bombom", "o bombom também tem seus nutrientes", "qual é o problema de ele não jantar bem só hoje?". Queremos mostrar com isso que Valéria não está de fato convencida de que esta regra esteja correta.

Analisando a culpa, é importante relembrar essas mães que em pleno século XXI esta é uma condição presente na maioria das famílias e que a mulher deve resgatar o que a levou a trabalhar, que vai desde uma necessidade real de divisão dos custos da família, inclusive para dar melhores condições a seus filhos, até a realização pessoal de uma pessoa que quer ter outros horizontes profissionais. Desta forma a mãe mostra com atitudes que sabe se valorizar, se cuidar e preservar seu espaço individual, sendo um modelo importante para que a criança saiba também fazê-lo quando chegar seu momento. Com relação ao segundo fator, podemos dizer que quando os pais têm clareza e convicção de sua postura o confronto é mais rápido e tranqüilo.

Tratar filhos com diferença faz parte da natureza?
Cada ser humano é único, e por mais que os pais se esforcem, não é possível tratar todos os filhos da mesma maneira, mesmo que eles sejam do mesmo sexo. Muitas vezes, essa forma diferente de tratamento pode gerar alguns conflitos e ser motivo de sentimento de culpa por parte dos pais. Mas segundo especialistas em comportamento, a diferenciação entre os filhos, de mesmo sexo ou não, e até mesmo gêmeos, faz parte da natureza humana.
"Os pais amam e brigam com os filhos com a mesma intensidade e tentam heroicamente tratar igual, mas eles não são clones. É impossível", afirma a psicóloga Silvana Martani. Segundo ela, os princípios e regras devem ser os mesmos para todos, mas os pais devem estar conscientes de que cada filho vai ouvir e interpretar o que eles falam de uma maneira diferente.

De acordo com a psicóloga o pensamento machista que muitos pais têm até hoje de dar mais liberdade para os filhos homens do que para as mulheres é totalmente arcaico e uma forma incoerente de educar. "Educando com incoerência, o filho acaba sempre dando um jeito de burlar as ordens e aprende a mentir melhor. Portanto, os limites impostos têm que valer para todos. Os filhos homens correm os mesmos riscos que as meninas".

Para o psiquiatra e escritor Içami Tiba, a diferença de tratamento não está só na diferença de sexo dos filhos. "Não dá para negar a diferença da natureza biológica entre homens e mulheres. Mesmo dois filhos homens, ou gêmeos, são indivíduos únicos. Tratar igual é algo muito distante", diz. Segundo ele, os pais devem diferenciar os filhos, mas deixá-los conscientes do porque dessa diferença. No caso de filhos adolescentes, que vivem a fase de contestação e questionamentos, Tiba destaca a importância de explicar, por exemplo, para a menina o porquê de não poder fazer certas coisas, e ir a determinados lugares que o irmão pode, e vice-versa. 

É preciso ter bom senso. E as meninas acabam ficando com mais responsabilidades em algumas áreas. No caso do sexo, são elas que correm o risco de engravidar, mas isso não significa que os pais têm que prender a filha em casa e liberar o rapaz. O correto é ter os mesmos cuidados com ambos, mas deixá-los cientes de suas responsabilidades, das conseqüências de seus atos", explica Tiba.
O psiquiatra lembra que sempre que um filho se sentir em desvantagem vai fazer questão de dizer aos pais, e isso não deve ser motivo para que eles se sintam culpados. De acordo com Tiba, da mesma forma que os pais tratam os filhos com diferença, eles também têm comportamentos diferenciados com os pais.
"É preciso levar em consideração como os filhos tratam os pais. É claro que aquele filho que estuda, respeita os pais e é esforçado terá mais benefícios do que um que não estuda, é respondão e não é educado. Os pais devem explicar isso na hora da cobrança, mas nunca fazer comparações do tipo ¿ele é mais inteligente ou mais competente que você'
O psicólogo Mauro Ferreira de Godoy, especialista em psicologia analítica, concorda que a diferenciação entre filhos e filhas é inerente à natureza, e reforça que os pais não devem tentar ir contra. "Muitas vezes eles atrapalham essa natureza da diferença entre meninos e meninas que existe há mais de 10 milhões de anos. Sempre que os pais tentaram tratar com igualdade os filhos acabaram criando pessoas problemáticas", destaca.

Segundo ele, é em casa, e com essa diferenciação que a criança aprende a lidar com as pessoas. Godoy explica que a forma como os filhos se relaciona com os pais será a mesma que eles vão se relacionar com as pessoas no dia-a-dia. "Por isso tem que ser respeitada a diferença, pois quando esse filho sair de casa a sociedade não vai tratar com igualdade sempre", argumenta.

As reclamações dos filhos sobre o tratamento recebido e conflitos criados em virtude de restrições impostas são antropológicas e existem em todas as famílias. "Os pais não devem se preocupar, afirma.


Seus medos

As crianças, em sua primeira etapa e até a adolescência acumulam e criam medos que transformam em diabos ou fantasmas. Nem sempre os acompanham, e podem surgir de repente na vida de um menino de onze anos que até então não tinha desenvolvido esta circunstância.
Um menino de nove anos pode desenhar um monstro, que no subconsciente representa seu dinamismo fechado no fundo de sua personalidade, que tenta dominar para dar gosto ao desejo de tranqüilidade de seus pais, que em um momento determinado recortaram seus impulsos de fazer ruído, correr ou brincar antes de ter podido sublimar essa energia vital.

"A criança projeta a idéia do diabo nos monstros animais, na medida em que sente seus instintos perigosos como instintos possessivos de potência material e de domínio", diz Doltó, que segundo sua experiência ressaltou que a questão do diabo se coloca mais "em meninos que em meninas".

O diabo é no fim das contas para o menino a luta entre o bem e o mal; o monstro surge como imagem das causas exaltadas e sublimadas como objeto ou situação ideal. 

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